2/02/2005 O Fórum Social Mundial acabou. William Vieira, estudante de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina, foi ao evento desse ano, comparou com o de 2003 que também compareceu e escreveu um texto publicado com exclusividade no Olhos de Mosca. Vale a pena ler esse sensacional relato de alguém que assistiu o discurso do presidente venezuelano Hugo Chavez: .::Esquerdas da minha América::. William Vieira "Viva el socialismo!", gritava ao microfone um dos membros da Central Única dos Trabalhadores, no que era seguido pelas dez mil pessoas que ocupavam cada centímetro do Gigantinho, enquanto aguardavam a chegada dele, o presidente da Venezuela, Hugo Chavez. Trazido pela CUT para ser a grande atração do último dia de palestras do 5º Fórum Social Mundial de Porto Alegre, Hugo Chavez foi a carta na manga do PT para livrar-se da má - péssima, talvez - impressão deixada nos outros dias do evento. Tentativa frustrada, vale lembrar. Bandeiras de todos os movimentos sociais, como o CMP, o argentino Barrios de Pie, o paraguaio MCP, e os bem brasileiros PcdoB, PSTU e P-SOL - em sua estréia no fórum -, balançavam junto das unânimes bandeiras venezuelanas. Muitas nas mãos das centenas que se esmagavam nos corredores, sem chance de sentar-se, mas não querendo sair. Outras utilizadas como leques, para abanar o calor de quase 40ºC que martirizou os participantes do Fórum nos seis dias. Todas tremulando com vontade quando se ouvia o "olé" ecoar pelo ginásio, levantando a platéia numa ola ansiosa. "Ele vem ou não vem?", incitava o locutor. Marcado para as 17h, o debate com Chavez já atrasara mais de duas. Não havia, porém, cansaço nos olhos das esquerdas de toda a América, que dançavam ao som de "Quanta lamera", enquanto gritavam : "A América é uma só!". "La esperança volve a iluminar los coraciones. Viva la Venezuela Bolivariana, Viva Chaves!", e por isso estavam todos ali, apertados, suando, confrontando-se entre si. A batalha era a das esquerdas fissuradas por um governo que se desdisse - é o que crêem PSTU, PcdoB, UJS, P-SOL, grupos menores e movimentos sociais que bradaram seu apoio a Lula às vésperas da campanha de 2004, quando ele esteve no Fórum pedindo "a unidade para mudar", e que agora se sentem traídos. "1, 2, 3, 4, 5 mil, ou para essa reforma ou paramos o Brasil" - e mais da metade da platéia gritava junto, sobrepondo a voz do locutor que pedia a tal unidade. "Pedimos que as manifestações se atenham aos ideais comuns. Temos que nos unir contra os reais inimigos, todos contra o capitalismo, contra a Alca e contra Bush.", o que foi sintetizado no slogan "Globalizemos a luta". E ele não vinha. O cheiro de suor e calor emanava dos corredores, o barulho de diferentes slogans misturados num caos escaldante. "Ele já está vindo", dizia o locutor. "Deve estar no Mcdonalds", rebatia alguém na platéia. "Mais uma vaia para Bush? Fora Bush!" e assim ia, uma sucessão de gritos de guerra, inspirados talvez no sindicalismo dos anos 80, aquele mesmo que levou Lula à presidência e que hoje traz tanta gente inconformada para ver Chavez, ouvir Chavez, quem sabe tocá-lo. "Chavez sim, Lula não!" - mais um slogan do P-SOL, interrompido por uma ensurdecedora salva de palmas, pela primeira vez unânime. Com uma camisa vermelha e um largo sorriso no rosto, Chavez subiu ao palco acompanhado de muita gente para falar, dar seu recado, fazer sua campanha particular. Gente como o Padre Geraldo Lima, que pediu os pulsos levantados - no que foi prontamente atendido -, unidos "por Chavez e Lula". "Nós somos uma só força, e temos de Ter um só pensamento!", gritou o padre, no que foi imediatamente vaiado. "Lula Não, Chavez sim". No Fórum Social as pessoas aplaudem tudo o que parece justo. Como uma campesina de chapéu de palha, que lia um discurso inflamado, clamando "o fim da escravidão e da exploração da América latina", inspirados em Simón Bolívar. "Havemos de conspirar pela sobrevivência deste resto de mundo. Pátria livre, Venceremos", gritava, os olhos reluzindo. Chavez levantou-se e beijou-lhe a testa. No Fórum, o que quer que pareça um pedaço de cultura autóctone merece atenção redobrada. Depois de assistir a umas vinte pessoas, vestidas em bandeiras sul-americanas, dançar uma cantilena "indígena" por mais de dez minutos, chegava a vez da platéia embalar-se numa nova cantiga, esta festiva, mais animada, com pessoas em trajes de estrelas com os dizeres "socialismo, participação", "unidade", "Integração". Um "la ia la ia" que Chavez tentava acompanhar, os lábios mexendo-se descompassados. Toda essa harmonia complacente chegou ao fim com o discurso de Luiz Marinho, presidente da CUT, vaiado pela platéia, alcunhado de "pelego". Tentando se fazer ouvir, Marinho começou a berrar ao microfone o mesmo discurso que, dias atrás, fizera o ministro Luiz Dulci ser vaiado no debate com José Saramago - o discurso sobre o Lula que faz e o governo que está dando certo. A platéia não perdoa: "1, 2, 3, 4, 5 mil, ou para essa reforma ou paramos o Brasil". Também Olívio Dutra teve de gritar alto para fazer a platéia entender a comparação entre Chavez e Lula. "Viva a luta que muda, viva as pessoas que, como Chavez e Lula tentam mudar". Um momento de respeito se deu quando o presidente do Le Monde Diplomatique e um dos organizadores do FSM, Ignácio Ramonet, iniciou o discurso comparando Chavez a de Gaulle - segundo ele, "dirigentes diferentes". "Hugo Chavez é um democrata, o único na história a submeter-se a um referendo, no meio do mandato e tê-lo ganhado!", falou, seguido de muitas palmas. Ramonet disse que Chavez é um dirigente de novo tipo, porque cumpre seu programa de campanha. Não houve vaias. Talvez a platéia não tenha entendido o belo espanhol de Ramonet, a não ser, claro, quando as línguas se aproximam: "No hay contradición entre democracia e revolucion!". O Gigantinho, feito pequeno, não comportava tamanha idolatria e curiosidade para com o homem político mais emblemático da América latina depois de Fidel. Quando Chavez aproximou-se do microfone, um murmúrio contido e ansioso tomou conta das pessoas. Esperavam que ele falasse, qualquer coisa. "Que emoção se sente aqui no Gigantinho", balbuciou. A platéia riu e aplaudiu, muito mais depois que o bem humorado presidente desculpou-se por não ter "aprendido o portunhol". "E English muito menos", sorriu, despontando, aos poucos, o carisma que fez dele o populista mais querido da história recente da América. Chavez falou de seu dia, do sol de Porto Alegre, das reuniões com dirigentes do MST, do belo estádio e do "gigante que é o Brasil", da juventude, do futuro. O vago discurso tomou corpo com afirmações de cunho comunista. "Aposto que um chico chamado Fidel Castro esta vendo isto em Cuba. Como está Fidel?", disse, sorrindo. "Vamos fazer uma conspiração anti-imperialista, anti-hegemônica!", soltou, finalmente, para o delírio da platéia. Assumiu-se um comunista moderno, um dirigente de "nuevo tipo", como disse Ramonet, mas "inspirado pelos viejos". "Por exemplo, Cristo, um dos maiores lutadores anti-imperialistas e revolucionários do mundo". Ou ainda Simón Bolívar, José Inácio Abreu de Lima, e "aquele médico asmático querido, que viajou a América do Sul numa motocicleta", disse, irônico, numa referência a Che Guevara, captada pela platéia que, dias antes, assistira ao documentário de Walter Salles. "Não esquecendo do grande Fidel, de Zapatero, de Pancho Villa, de Sandino, Prestes, de todos os viejos." Daí em diante, veio uma sucessão de críticas vazias ao "imperialismo diabólico norte-americano", à "sua mão peluda e ossuda que há tempos atropela nossas terras", de chamados à revolução, que pragmaticamente não diziam muito. Chavez fez elogios ao companheiro Lula e seu governo, menções honrosas ao histórico do Fórum, falou de sua polêmica reforma agrária e soltou um pouco mais de sua retórica a la Sílvio Santos. E foi só. Para a multidão que aguardara Chavez por horas dentro do Gigantinho, para os outros dois mil que assistiram ao evento num telão do lado de fora, a efusão de sentimentos pró América Latina e anti-Bush podem ter significado muito. Mas para quem acreditava - e eram muitos - que "um novo mundo é possível", que propostas concretas fosse trazidas ao Brasil, a decepção foi grande. Como foi ainda maior a decepção com o resto do fórum. Palestras canceladas, horários trocadas em cima da hora, debaterores ausentes, um calor sufocante dentro das tendas que margeavam o Lago Guaíba no chamado "território social mundial" fizeram desse fórum uma cópia malfeita do de 2003. Hobsbawn viria debater com Paulo Freire, mas em cima da hora fora anunciada sua substituição por Fogaça. No Araújo Viana, uma multidão enfrentou horas de fila no sol para ouvir Galeano e Saramago, dentre outros, e tiveram apenas um pouco de conceituação sobre utopia. Salvou, como poucas coisas, Saramago ter pronunciado, na sua métrica perfeita, um belo discurso de negação à utopia do FSM. Salvou, também, o contato com as pessoas, de vários Brasis e países, centenas de hippies vendendo artesanato, coreanos anti-imperialistas torrando ao sol em marchas contra Bush, batucadas adentrando o acampamento da juventude e sacudindo as dezenas de milhares ali amontoadas. E salvou também o gostinho de despedida presente desde o primeiro dia de fórum, quando já era sabido que o próximo não seria em Porto Alegre - mais tarde soube-se que seria sediado na Venezuela, ainda que descentralizado, em outros países. De resto, a simples saída do marasmo político em que vive um país como o Brasil. Depois de anos tentando empossar democraticamente um esquerdista na presidência; tendo isso acontecido; dois anos de governo depois e nada tendo mudado - ainda assim a aceitação da continuidade parece plena. Mas só parece. Vendo a cisão entre a posição das diversas esquerdas que outrora foram a base do governo Lula, a maioria negando seu apoio a uma nova candidatura em 2006, é curioso imaginar onde o PT vai buscar ajuda. Nesse caso, "viva el centro!". .::por Bruno Moreschi::. Bruno Moreschi :: 10:45 PM :: Comment