1/18/2005 A Revista eletrônica Pangea (www.revistapangea.com.br) é um dos melhores quinzenários quando o assunto é relações internacionais. O professor Nelson Bacic, um dos editores, falou nessa entrevista ao Olhos de Mosca, sobre as eleições no Iraque. Obrigada ao professor pelas ótimas respostas que ajudam a entender mais sobre o panorama do conflito. 1. Na atual situação política do Iraque, qual o significado das eleições do dia 30? Nelson Bacic - As eleições do próximo dia 30 de janeiro no Iraque, podem ter vários significados. Para o governo norte-americano, é ponto de honra realizá-las. Os EUA crêem que se a democracia for implantada no Iraque (um regime que nunca existiu no país), ele seria uma espécie de vitrine para os demais países não democráticos do Oriente Médio. Para os iraquianos, o significado parece ser bem diferenciado. Alguns acreditam que a introdução de um regime democrático no país seria a cura para todos os males. Outros, no entanto, tentam fazer o possível para que as eleições não aconteçam, pois seriam contra seus objetivos. Deve-se lembrar que as eleições do dia 30 são para escolha de uma assembléia nacional que redigirá uma nova constituição para o Iraque e levará à formação de um governo efetivamente eleito. 2. O que poderia ocorrer no caso de um governo predominantemente xiita vencer a eleição? Nelson Bacic - Teoricamente a eleição de um governo xiita seria possível, já que cerca de 60% da população iraquiana professa esse ramo do islamismo. Ressalte-se que os xiitas, apesar de majoritários, nunca estiveram no poder. A concretização desse fato poderia levar a uma aproximação entre os xiitas iranianos e iraquianos. Todavia, isso poderia não acontecer porque existem rivalidades de caráter étnico entre esses dois grupos (os iraquianos são árabes e os iranianos são persas). Por outro lado, os xiitas iraquianos sabem que o Irã seria o próximo alvo da Doutrina Bush. Deve-se lembrar também que existem divisões entre os próprios xiitas iraquianos que, não necessariamente, poderiam se juntar para manter a governança do país. Além disso, os xiitas do Iraque teriam, provavelmente, uma ferrenha oposição dos sunitas iraquianos (cerca de 20% da população) e que estiveram no poder durante todo o tempo desde a independência. Deve-se lembrar também que há uma grande rivalidade entre sunitas e xiitas do Iraque, sendo que os últimos, de maneira geral, consideram os primeiros quase tão "infiéis" quanto os ocidentais. Resumindo: um eventual governo xiita teria grandes problemas internos e externos a superar. 3. Na sua opinião, qual seria a consequência da saída das tropas norte-americanas logo após o processo eleitoral? Nelson Bacic - Não se vislumbra, pelo menos por enquanto, a saída das tropas norte-americanas após o processo eleitoral. Há quase um consenso entre os estrategistas americanos que, mesmo que as eleições sejam um retumbante sucesso (o que é pouco provável), as tropas norte-americanas teriam que ficar presentes no país por pelo menos 2 a 3 anos para que o processo democrático se consolidasse. Uma eventual saída repentina das tropas americanas, lançaria o Iraque numa guerra civil que provavelmente levaria à formação de três "países": um dominantemente xiita no centro-sul, um dominantemente sunita na porção central e um Estado curdo na porção setentrional do país. As conseqüências desse cenário seriam funestas para todo o Oriente Médio. 4. O termo insurgência, utilizado pela mídia em geral, é correto para designar a oposição à invasão norte-americana no Iraque? Nelson Bacic - Segundo o dicionário Houaiss, insurgir significa revoltar(-se) contra um poder estabelecido; levantar(-se), sublevar(-se), erguer(-se). Acredito que o termo insurgência possa ser usado para designar a oposição dos iraquianos à presença norte-americana no país. O que talvez possa ser ressaltado é que os insurgentes não são apenas iraquianos. Há entre os insurgentes um número cada vez maior de estrangeiros lutando contra os norte-americanos. Por exemplo, atualmente, o "inimigo público número 1" dos norte-americanos no Iraque é o jordaniano Al Zarqwi, que segundo os órgãos de inteligência é o "representante" da Al Qaeda no Iraque. Parece estar acontecendo no Iraque fatos semelhantes aos que ocorreram durante a invasão soviética do Afeganistão (1979/1988) e no Afeganistão dos Talibans (1994/2001), quando se formaram nesses dois países autênticas "multinacionais extremistas". Por Giovana Sanchez (Fico responsável pela atualaização do blog até a volta do Bruno, que está viajando. Dúvidas ou comentários: gioveva@uol.com.br) .::por Bruno Moreschi::. Bruno Moreschi :: 1:14 PM :: Comment