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· Bruno Moreschi é estudante
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1/11/2005


O repórter Paulo Sampaio, da Revista da Folha, mudou meu dia. Pra melhor. A série de entrevistas relâmpago feitas com anônimos do Rio e de São Paulo e publicada na edição de domingo da Revista conseguiu expor muito da identidade do brasileiro. As histórias de gente comum, de gente gente, são pautas riquíssimas. Um belo retrato. Aí vão algumas das entrevistas com, no máximo, quatro minutos.

Conversa fiada
por Paulo Sampaio

Aparecida Isabel Ferrari, faxineira, 52, no elevador, entre o 11º andar e a garagem de um prédio de classe média (com três paradas)
Tempo: 2min50s
- Tudo bem?
- Como Deus quer.
- A sra. entrega muita coisa na mão de Deus?
- Ele é quem pode tudo...
- A sra. é católica?
- Evangélica, com a graça de Deus nosso Senhor.
- Acha que Ele olha por todo mundo igual?
- Com certeza.
- Mas a sra. trabalha tanto, parece tão cansada...
- A gente tem que trabalhar.
- Onde a sra. mora?
- Perto de Jundiaí, dá uma hora e meia daqui...
- Vem como?
- De trem...
- Vem sentada ou em pé?
- A maior parte das vezes em pé.
- Deus não arruma um lugar pra sra. vir sentada?
- Ele me dá forças pra ficar em pé.

Luciana Ribeiro, 31, estilista, saindo com a amiga Carolina Gonçalvez, 25, da loja D&G do shopping Iguatemi
Tempo: 3min32s
- Comprou alguma coisa?
- Não. Pago no máximo R$ 800 por uma peça. Aí, uma blusinha custa R$1.500.
- Qual foi a última peça que comprou?
- Um jeans, hoje de manhã. Paguei R$ 800.
- Está feliz?
- O que você acha? Claro! A pessoa que paga R$ 800 por um jeans e não está feliz tem que se matar.
- E essa bolsa (Louis Vuitton)?
- Ganhei do meu namorado. Eu escolhi. Tem que escolher, senão vem bomba.
- Quanto custou?
- R$ 2.500.
- Quanto tempo de namoro é necessário para ganhar um presente de R$ 2.500?
- Como assim? Eu estava com ele há um mês, mas isso não tem nada a ver. Quando a gente gosta, não faz diferença um mês ou um ano. Eu dei a ele uma carteira Louis Vuitton e uma Montblanc (caneta)...
- Antes ou depois de ele te dar a bolsa?
- Depois, mas eu já tinha dado uma bicicleta, com um mês. (Carolina intervém) - Ah, não, com um mês eu dou no máximo um cartão.
- Ainda estão namorando?
- Não.

Claudivan Pereira, 20, vendedor-locutor, alagoano, mora em São Paulo há pouco mais de um ano, trabalha na rua Gal. Carneiro
Tempo: 2min16s
- Foi seu patrão quem inventou o texto que você diz ou é de sua autoria?
- Sou muito criativo... Se você observou, não fico apenas dizendo palavras como boneca, brinquedo, panela de pressão. Tem uma idéia unindo as frases.
- Você parece ter intimidade com o microfone...
- Muita.
- Costuma cantar?
- Canto na igreja. Quero me profissionalizar, esse é meu sonho. Gostaria também de ser apresentador de TV.
- Já tentou concurso de calouros?
- Não.
- Acha que pode ser descoberto por um produtor que esteja passando?
- Sabe que isso sempre me passa pela cabeça...?

Josias Agnaldo de Lima, 38, motoboy, casado, point central de motoqueiros, a calçada defronte ao Pátio do Colégio
Tempo: 2min50s
- Quando foi a última vez que caiu?
- Faz uns seis meses, um cara passou no sinal vermelho, me catou no cruzamento. Quebrei os dois pés...
- Qual a sua pior lembrança?
- As drogas: 14 anos de crack, sete de cocaína, três de maconha.
- Mas...
- ... Na época eu trabalhava em desmanche de carro roubado, foi lá que conheci o crack...
- ...e...
- Roubava carro também.
- Já foi preso?
- Uma vez. Fui solto, comecei a roubar de novo. Aí, abri a minha própria loja, concessionária, os papéis todos certinhos, a polícia veio e fechou...
- E hoje?
- Fui salvo pela igreja evangélica. Nunca mais usei droga...
- Bebe?
- Nada. Um abismo leva ao outro...

Sérgio Silva, 23, desempregado, e João Silva, 19, estudante de Comunicação (Rádio e TV): os dois estão abraçados no café do Espaço Unibanco de Cinema
Tempo: 3min19s
- Por que vocês se abraçam em público?
- Porque a gente quer e não vai ficar atrás da moita.
- Considera a atitude natural?
- Para mim, agora, é. Antes não era.
- Antes de quê?
- De conhecer o João.
- Faz quanto tempo?
- Três meses. Nunca gostei tanto de alguém como dele.
- Você era virgem de homem?
- Não.
- E de mulher?
- A gente se conhece há sete meses e sempre se gostou. Eu ficava com uma amiga dele, então era proibido. Havia uma tensão no ar.
- O filme já acabou, mas vocês ficaram no café do cinema. Acha que lá fora, na rua, não se sentiriam tão à vontade?
- Aqui ninguém fala nada porque são pessoas teoricamente esclarecidas, intelectuais. Se bem que outro dia estávamos na galeria Ouro Fino e o segurança mandou a gente tirar o braço um do outro.
- Na galeria Ouro Fino tem intelectual?
- Não, mas o público é moderninho, basicamente a mesma coisa que intelectual. Quanto mais estranho, melhor.
- Você acha que a reação das pessoas os aproxima, tipo "estamos vivendo um amor proibido"?
- No começo, rolava isso sim, mas só entre os nossos amigos.

Nestor Midela, 50, argentino, é morador de rua no Rio desde 1981, quando migrou de Buenos Aires; fala com forte sotaque
Tempo: 2min56s
- O que o sr. leva nesses carrinhos?
- Latas velhas de refrigerante. Com o dinheiro que consigo vendendo as latas, tomo um café. Às vezes "alcança" um lanche...
- Um só?
- É o que eu como por dia. Jantar, só três vezes por quinzena. Tomo muitos cafés.
- O sr. não tem corpo de quem come apenas um lanche por dia. Quanto pesa?
- Coloco muito açúcar no café, é por isso. Tenho 138 kg e 1,71 m.
- Já passou fome?
- Tive sorte, não. Quando o governo era de esquerda, na época do (Leonel) Brizola, os assistentes sociais cuidavam bem do morador de rua, davam até refrigerante. Depois, houve um período mais duro e, recentemente, quando eles me perguntaram o que que queria, eu disse: "Voltar a ser gordo".
- Por que migrou para o Brasil?
- Para fugir da convocação para a guerra das Malvinas.
- Valeu a pena?
- No fim deu na mesma.

Prostituta na rua Augusta
Tempo: 19s
- Entrevista? Sem dinheiro não adianta nem chegar...

Por Giovana Sanchez
(Ficarei responsável pela atualização do blog até a volta do Bruno, que está no Uruguai. Dúvidas ou comentários: gioveva@uol.com.br)

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