1/02/2005 .::O complexo planeta Terra::. Luiz Fernando Scheibe é membro da Associação Brasileira de Desastres Naturais (Abraden) e no último dia de 2004 respondeu algumas perguntas que enviei por e-mail sobre o desastre que matou pelo menos 150 mil na Ásia e África. A entrevista com Luiz Fernando Scheibe não serviu apenas para esclarecer dúvidas pontuais sobre os tsunamis. O professor com mestrado na UFRGS, doutorado na USP e pós-doutorado na Universita degli Studi La Sapienza, em Roma, fala sobre a influência do homem na ocupação do solo e desmistifica a idéia de que o Brasil está livre de grandes desastres naturais. Classificação: "Terremoto é uma forte vibração das rochas em conseqüências de um abalo sísmico. Maremoto é equivalente ao terremoto na água do mar. A tsunami é o nome da onda que se forma como conseqüência do maremoto. Porém a tsunami pode também ser provocada por outras causas, como erupções vulcânicas ou, eventualmente, explosão de bombas de grande poder." Sobre o desastre na Ásia e África: "Uma grande catástrofe! Apesar da ocorrência de sismos nas placas do oceano Pacífico ser freqüente, o desastre foi algo completamente inesperada, considerando a magnitude assumida pela onda formada." Mudança na rotação da Terra: "Os cientistas que divulgam esses dados afirmam também que as conseqüências serão pequenas e que dificilmente serão mensuráveis pelos equipamentos disponíveis. É interessante também observar que, na escala geológica, muitos outros fenômenos similares vêm ocorrendo, fazendo com que a terra inteira esteja em constante modificação." Um aspecto que ainda não vi comentado é a possível influência que o terremoto - com modificação na profundidade de partes do oceano, e mesmo poração das ondas sísmicas - poderia ocasionar nos depósitos marinhos de hidratosde metanos, com liberação de grandes quantidades de metano para a atmosfera, e complicação do efeito estufa. Menciono a possibilidade apenas para acentuar a completa interdependência entrea litosfera, a hidrosfera e a atmosfera, e a complexidade do conjunto dossistemas terrestres." Previsão de desastres: "Eles são previsíveis, no sentido de que sabemos da possibilidade de que venham a ocorrer. Um exemplo bem conhecido é oda grande falha de Santo André, na Califórnia, que já foi responsável pormuitos terremotos na região, inclusive alguns catastróficos em São Francisco:ela continua ativa, e sabe-se que outros terremotos ocorrerão naquela área - inclusive, eventualmente, o big one, para o qual ninguém está realmente preparado. O que não temos ainda condição de prever é quando, onde, e qual amagnitude do próximo evento." A costa brasileira: "Enquanto o oceano Pacífico está encolhendo, devido ao cavalgamento de inúmeras placas tectônicas (a América do Sul, por exemplo, ao se deslocar para oeste consume as placas do fundo do Pacífico, num movimento que entre outras coisas gerou e mantém ativa a Cordilheira dos Andes), o oceano Atlântico está em contínua expansão, através do extravasamento relativamente calmo de magma, a partir do manto da terra. Assim o Atlântico, ao contrário do Pacífico (seria este nome, portanto, adequado?), não tem capacidade de gerar senão sismos de muito pequena magnitude. Grandes erupções vulcânicas ou explosão de artefatos de grandepotência não podem a priori ser descartadas, mas não temos quaisquerevidências de que possam ocorrer num futuro próximo na costa brasileira." Brasil seguro? "As conseqüências de muitos desastres ditos naturais dependem muito mais do tipo de ocupação ou uso da terra do que da magnitude do fenômeno natural em si. A ocorrência de chuvas concentradas é comum em toda a margem atlânticabrasileira, e as enchentes de Tubarão em 1973 (199 mortos), de Blumenau em1983 e 1984, e de Timbé do Sul, Jacinto Machado e Alto São Bento no Natal de 1995 (29 mortos), são exemplos de grandes desastres naturais apenas em Santa Catarina. E o que dizer da fome e da má distribuição de renda no País, que de natural nada têm, mas que vitima hoje muitos milhões mais de brasileiros do que apontou Josué de Castro, o grande médico e geógrafo, em sua Geografia da Fome, já em 1946? O drama maior é que tendemos a naturalizar esses aspectos, a aceitá-los como inevitáveis e conseqüentemente perder nossa indignação. Que pode ser um antídoto importante na luta pela sua superação. Não só temos grandes desastres naturais, como muitos outros grandes desastres a prevenir e a combater. Hoje, contudo, merecem todo apoio as vítimas do tsunami. A busca do entendimento do fenômeno deve também contribuir para que busquemos de alguma forma auxiliar as entidades assistenciais em seus esforços para diminuir o sofrimento." Contatos com Luiz Fernando Scheibe e seu currículo podem ser encontrados na Plataforma Lattes. .::por Bruno Moreschi::. Bruno Moreschi :: 3:48 PM :: Comment